E Não Sobrou Nenhum: Quem é o assassino? Spoilers do livro de Agatha Christie

Se você me perguntar qual é o maior mistério já escrito em toda a história da literatura, eu não vou hesitar nem por um segundo: E não sobrou nenhum, da nossa eterna Rainha do Crime, Agatha Christie, é a obra-prima absoluta do gênero. Este é, sem dúvida, o meu livro favorito da autora e um dos livros que eu mais reli na vida, justamente por ser uma aula de como construir tensão, paranoia e uma trama que desafia qualquer lógica até a última página.
A premissa é daquelas que prendem a gente logo na primeira linha: dez desconhecidos são convidados por um anfitrião misterioso para uma luxuosa mansão na isolada Ilha do Soldado, na costa de Devon, mas ao chegarem lá, percebem que ninguém conhece o tal Sr. Owen. Presos pela maré e por uma tempestade iminente, eles confrontam seus segredos mais sombrios enquanto uma série de mortes inexplicáveis começa a seguir os versos de uma antiga cantiga infantil.
Agatha Christie dispensa apresentações, sendo a autora mais publicada de todos os tempos, atrás apenas da Bíblia e de Shakespeare. Em E não sobrou nenhum, publicado originalmente em 1939, ela atingiu o ápice de sua “Era de Ouro”, abandonando seus detetives famosos como Poirot ou Miss Marple para criar um jogo de sobrevivência onde não existe um herói para nos guiar. Este livro é frequentemente citado como o maior desafio técnico que ela já enfrentou como escritora, e o resultado é uma estrutura narrativa milimétrica que praticamente inventou o que hoje conhecemos como o subgênero “slasher”.
A partir daqui, vou falar sobre tudo o que acontece no livro — inclusive quem é o assassino, cada morte e o final surpreendente. Se você ainda não leu esse clássico e não quer estragar a experiência (e acredite, você quer ter a surpresa de ler pela primeira vez!), pare agora mesmo!
Lista de Personagens de e não sobrou nenhum
- Lawrence Wargrave: Um juiz aposentado conhecido por ser implacável e por enviar muitos réus à forca durante sua carreira.
- Vera Claythorne: Uma jovem professora de educação física contratada para ser secretária na ilha, que carrega a culpa pela morte de uma criança.
- Philip Lombard: Um soldado de fortuna cínico e aventureiro, que não nega ter deixado homens para morrer na África para se salvar.
- Edward Armstrong: Um médico de prestígio em Harley Street que, apesar do sucesso, esconde um erro fatal cometido no passado.
- William Blore: Um ex-policial e detetive particular que usou de meios escusos para conseguir condenações e avançar na carreira.
- Emily Brent: Uma mulher idosa extremamente religiosa e severa, cujos princípios rígidos esconderam uma crueldade moral devastadora.
- General Macarthur: Um veterano de guerra que vive atormentado por um crime passional que cometeu décadas atrás.
- Anthony Marston: Um jovem rico, belo e completamente amoral que não vê peso algum nas vidas que tirou com sua direção imprudente.
- Thomas e Ethel Rogers: O casal de empregados da casa que, sob uma fachada de eficiência, esconde um segredo terrível sobre sua antiga patroa.
O Convite Sinistro e a Condenação de “U.N. Owen”
A história começa com esses dez personagens viajando para a Ilha do Soldado. Cada um recebeu uma carta ou proposta de trabalho de alguém que, à primeira vista, parecia legítimo, mas que logo descobrimos ser uma invenção de um certo “U.N. Owen”. O que eu acho fascinante nessa introdução é como Agatha Christie nos dá relances dos pensamentos internos deles; todos estão desconfortáveis, todos escondem algo sob a superfície de polidez britânica.
Na primeira noite, após um jantar excelente, o clima de hospitalidade é brutalmente interrompido. Um gramophone, operado por Rogers sob ordens escritas, começa a tocar uma gravação intitulada “O Canto do Cisne”. Uma voz metálica e acusadora lê uma lista de indiciamentos: cada pessoa naquela sala é acusada de um assassinato que a lei nunca conseguiu punir.
É aqui que o psicológico começa a pesar. Vera entra em pânico, o General Macarthur fica atordoado e a Sra. Rogers desmaia. O grupo percebe que o nome “U.N. Owen” é um trocadilho para Unknown (Desconhecido). Eles estão presos em uma ilha onde não há sinal de anfitrião, apenas eles e suas culpas.

O Início do Pesadelo e o Poema na Parede
O que torna E não sobrou nenhum uma leitura tão visceral é o uso da cantiga infantil “Dez Soldadinhos”. Em cada quarto há uma cópia do poema, e no centro da mesa de jantar, dez pequenas estatuetas de porcelana. A primeira morte acontece de forma chocante naquela mesma noite: Anthony Marston, o jovem imprudente, bebe um uísque com cianeto e morre asfixiado. “Um se engasgou e então sobraram nove”. Na manhã seguinte, os convidados notam que uma das estatuetas desapareceu da mesa.
Logo depois, a Sra. Rogers morre durante o sono após tomar um sedativo dado pelo Dr. Armstrong. Seria uma overdose acidental? Ou algo mais sinistro? Quando a segunda estatueta some, a paranoia se instala de vez. Eles percebem que as mortes estão seguindo rigorosamente os versos do poema.
Eu adoro como a Agatha trabalha o isolamento aqui. A Ilha do Soldado é um rochedo nu; não há onde se esconder. Lombard, Blore e Armstrong fazem uma varredura completa na ilha e na casa, acreditando que há um assassino escondido em algum lugar. A conclusão deles é aterrorizante: não há mais ninguém na ilha. O assassino é um deles.
O Julgamento de Lawrence Wargrave
A tensão aumenta quando o General Macarthur é encontrado morto por uma pancada na cabeça. Ele já estava agindo de forma estranha, dizendo que ninguém sairia vivo da ilha, quase acolhendo o fim. Com a morte dele, o Juiz Wargrave assume o controle da “sessão pública”. É uma cena clássica: Wargrave senta-se como se estivesse em seu tribunal, analisando os álibis de cada um.
Neste ponto, o livro se torna um jogo de xadrez psicológico. Ninguém confia em ninguém. Eles estabelecem regras: ninguém sai sozinho, todos se vigiam. Mas nem isso impede o inevitável. Rogers é morto com um machado enquanto corta lenha para o café da manhã. Emily Brent é a próxima, morta por uma injeção de cianeto enquanto estava sozinha na sala, com uma abelha deixada na janela para satisfazer o poema (“Uma abelha picou um e então sobraram cinco”).
Aqui vemos a perda total da humanidade. Agatha Christie descreve os sobreviventes como animais — Vera é um pássaro assustado, Lombard é um lobo pronto para o bote, Blore é um touro. A pressão é insuportável. É impossível não sentir a angústia deles conforme o grupo diminui.
O Teatro da Morte e o Desaparecimento de Armstrong
A morte mais teatral e visualmente impactante é a do próprio Juiz Wargrave. Após um susto com algas marinhas penduradas no teto do quarto de Vera (uma distração genial do assassino), os homens correm para ajudá-la. Quando voltam, encontram Wargrave sentado em sua cadeira, vestido com a cortina vermelha do banheiro como uma toga e a lã cinza de Emily Brent como uma peruca de juiz. Ele é baleado na cabeça. Armstrong confirma o óbito.
O assassino agora parece ser Armstrong, já que o médico desaparece durante a noite. Blore e Lombard ficam em alerta máximo, mas Vera é quem mantém a lucidez — ou o que resta dela. Quando Blore entra na casa sozinho para comer, ele é esmagado por um relógio de mármore em formato de urso que caiu (ou foi jogado) da janela de Vera. “Um grande urso abraçou um e então sobraram dois”.
Vera e Lombard encontram o corpo de Blore e, logo depois, o mar traz o corpo do Dr. Armstrong para a areia. Ele não fugiu; ele morreu afogado. Isso deixa apenas Vera e Lombard vivos.
e não sobrou nenhum: O Duelo Final entre Vera e Lombard
Essa é uma das minhas partes favoritas. Vera e Lombard estão na areia, olhando para o corpo de Armstrong, e cada um está convencido de que o outro é o assassino. Vera, em um momento de pura adrenalina e desespero, consegue roubar o revólver de Lombard e o mata com um tiro no coração. Ela se sente triunfante. Ela sobreviveu e venceu o jogo.
Mas a vitória de Vera Claythorne é amarga. Ao voltar para a casa, exausta e mentalmente destruída pela culpa do passado (ela realmente deixou o pequeno Cyril morrer para que seu amante, Hugo, herdasse uma fortuna e pudesse se casar com ela), ela encontra um laço pronto pendurado no gancho de seu quarto. A sugestão hipnótica e o peso do seu crime a levam a chutar a cadeira. “Ele foi e se enforcou e então não sobrou nenhum”.
O Mistério de “E Não Sobrou Nenhum” e A Carta na Garrafa
A polícia chega à ilha e encontra dez cadáveres, mas nenhuma explicação lógica. Pelo estado dos corpos e pela posição da cadeira no quarto de Vera (que foi colocada contra a parede após a morte dela), eles sabem que alguém sobreviveu a todos e depois “arrumou a cena”. Mas quem?
A resposta surge em uma carta escrita pelo Juiz Lawrence Wargrave. Ele confessa que sempre teve um desejo sádico de matar, mas que esse desejo era equilibrado por um senso de justiça. Ele queria cometer o crime perfeito contra pessoas que mereciam a morte, mas cujos crimes eram tecnicamente impuníveis.
Wargrave revela que estava morrendo de uma doença terminal e decidiu sair da vida “em um clarão de excitação”. Ele recrutou Dr. Armstrong como um aliado ingênuo, convencendo o médico a ajudá-lo a forjar sua própria morte para que ele pudesse “espionar” o assassino. Com a ajuda de Armstrong, Wargrave fingiu ser baleado e foi dado como morto. Depois, ele atraiu o médico para um penhasco e o empurrou para a morte. Ele foi o responsável pela queda do relógio em Blore e pela preparação do laço para Vera. No fim, ele se suicidou em sua cama usando um sistema engenhoso com o revólver e um elástico, para que a arma caísse longe de sua mão e sua morte parecesse ter ocorrido junto com o “julgamento” inicial.
Resumo PARA preguiçosos de e não sobrou nenhum, de agatha christie
Em E não sobrou nenhum, o Juiz Lawrence Wargrave atrai dez pessoas para uma ilha isolada, acusando-as de crimes passados através de um disco de gramofone. Ele as mata uma a uma, seguindo os versos de uma cantiga infantil e quebrando estatuetas de porcelana para cada vítima. Wargrave forja sua própria morte com a ajuda do Dr. Armstrong, que ele mata em seguida. Após Blore ser esmagado por um relógio e Vera matar Lombard em legítima defesa (acreditando que ele era o assassino), Vera se enforca devido ao trauma e à culpa. Wargrave, o verdadeiro mentor, finaliza o plano organizando a cena e cometendo suicídio de tal forma que o mistério parece insolúvel para a polícia, deixando seu relato em uma garrafa lançada ao mar.
Ler este livro é entender por que Agatha Christie é a rainha. A precisão com que ela amarra cada ponta sem trair o leitor é simplesmente magnífica. Se você amou essa leitura, eu recomendo fortemente que assista à minissérie da BBC de 2015; ela é muito fiel ao clima sombrio do livro e a produção é impecável.
E você, conseguiu adivinhar que o culpado era o Juiz antes da revelação final? Qual das mortes você achou a mais criativa? Me conta aqui nos comentários, vamos debater essa obra-prima!
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